Nada passa.

(post absolutamente sincero, em pleno dia da mentira.)

Esse texto não é meu, é da Stella Florence e é bem antigo. Encontrei há mto tempo, li e guardei no coração. Mas meu mote agora é limpeza.. limpeza de pensamentos, de sentimentos, de imagens e de coisas que atraem uma dor que não quero mais pra mim. É preciso uma coragem sobrehumana pra abrir mão de uma parte de vc mesmo, e seguir adiante. A gente parece que não fica inteiro, nunca mais. Nos últimos dias (como tenho revirado todas as gavetas e prateleiras do coração) encontrei a lembrança desse texto caída na fresta dos meus esquecimentos. Aí está ele, pra quem tiver paciência de ler. Aqui estou eu, pra quem tiver paciência tb.

Onze da noite. Toca o telefone. É uma amiga, arrasada depois de um encontro que deveria ter sido bom.

– O que aconteceu?

– Ele parecia uma pedra de gelo, Stella.

– Ah, querida, não fica assim: você é linda! E vai superar esse babaca, você sabe que vai passar.

Depois de uma hora desligamos. Vesti meias de lã. Tomei um copo de chá. Devolvi os livros para a estante. Guardei a roupa passada. Fiquei assim, indo de um canto para outro sem saber exatamente o que me atormentava. Então, a ficha caiu. É mentira. A maior mentira que nos contaram – e que nós, piamente, acreditamos – é essa, a de que tudo passa. Nada passa. Passa coisa nenhuma.

A gente aprende a viver com as escaras, aprende a colocar ungüentos nos talhos fundos, conhece outras pessoas que são como bálsamos sobre as nossas feridas, mas elas, as sanguinolentas, as danadas, as malsãs, elas não passam. Uma mulher é uma chaga sempre aberta. Um homem é uma ferida sempre exposta. Nada passa.

Sentimentos? Eles se transformam em outros sentimentos, mas não passam. As pessoas que você amou, nunca te causarão indiferença (indiferença, o oposto do amor), sua única certeza é que você sempre vai sentir algo quando as encontrar – algo bom ou ruim, muito bom ou muito ruim. As pessoas que te menosprezaram, te usaram ou simplesmente te rejeitaram, continuam, cada qual com sua adaga, perfurando seu amor-próprio, dia após dia, umas mais, outras menos.

Somos todos, homens e mulheres, mestres no fingimento, na dissimulação, no recalque, mas a verdade, meus caros e minhas caras, a verdade é que nada passa. Por isso você vê uma mulher histérica ao pegar uma cebola podre no supermercado, por isso você vê o homem agindo como um primata no trânsito, por isso seu chefe estoura sem razão, por isso você teve uma crise de choro durante aquele filme, por isso as pessoas têm chiliques inexplicáveis: porque nada passa e nós precisamos de válvulas de escape.

Um colega da oitava série, chamado Fernando, olhou para mim em novembro de 82, e disse: ‘Nossa, como você é gorda’. A ferida continua aberta. Peguei um namorado transando com outra na área de serviço. Eu não disse nada, apenas dei marcha ré ouvindo o eco dos seus beijos pelos azulejos sem cor. A ferida continua aberta.

Dias atrás – exatamente dezessete de setembro -, eu, pela primeira vez em trinta e oito anos de vida, consegui gozar transando com um homem. Fiquei radiante: eu nunca havia alcançado o orgasmo durante a penetração, nem sabia o que era isso! Além do mais, ele me pareceu uma pessoa absolutamente adorável, do tipo que eu gostaria de encontrar muitas outras vezes. Mas ele não me procurou – ou escreveu – nem mesmo para dizer ‘não’. Não é uma palavra bonita, mais bonita do que silêncio. A ferida continua aberta.

Fica sempre um pouco de tudo, escreveu Drummond, às vezes um botão, às vezes um rato. Se você me vir tendo um chilique ao pegar uma cebola podre no supermercado, já sabe o que é: são as cócegas malditas dos meus malditos ratos. Porque nada, nada passa.

bjo, pessoas.

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