bem, obrigada.

Às vezes as palavras me parecem tão cheias de significados que procuro uma que não tenha nada a ver com o assunto. Talvez pra tentar uma originalidade infantil de quem acha que pensou algo pela primeira vez em toda a história da humanidade. Saio procurando alguma música, texto ou poesia que falem por mim. As pessoas fazem perguntas doloridas; “como você está?” (dói chegar onde estão as respostas). Como estou? Estou com frio – é isso? Mas não é só pelo pé gelado que não há meia que esquente. Um frio que parece congelar os pensamentos antes que eles pinguem. Fica tudo petrificado e imóvel como uma árvore aramada, que o vento sopra, aflige, instiga, mas não consegue mover. Como estou? A resposta precisa evaporar. O que se pode dizer, é o que menos importa saber sobre mim. A resposta de como estou, está onde não se vê. Como um gole d’água bebido no escuro. Como um pobre animal palpitando ferido. Como uma pequena moeda perdida para sempre na floresta ou um cachorro anônimo que resolve ir seguindo a gente pela madrugada na cidade deserta. Estou bem. Estou bem porque assim resolvi estar. Choro quando quero chorar e dou risada quando me apetece. Aceito todos os abraços e beijos que me são ofertados. Quem pode recusar certas esmolas? Deixo. Ou – mais que isso – permito-me. Mas há coisas que a gente não sabe nunca o que fazer com elas. Como uma imagem de alguém que não está, mas cujo corpo parece envolver o seu em um universo paralelo. Alguém cuja risada você ouve no vazio de silêncios desatentos. Não. Não há nada ali. Estou de tal forma sedenta que vejo miragens. Pode-se chamar assim? Miragens? Como lidar com uma ausência tão forte que chega a ser companhia? Será que estou me fazendo entender? Certas coisas são abstratas demais. É quase alguém que está ali, que não é ‘o alguém’, mas sim a ausência forte, tomando um lugar que não está mais ocupado. A saudade tem sido minha sombra. E não é poético, é quase palpável. Às vezes tenho a sensação que se eu pedir, ela vai me dar um abraço (ela não é cruel). As pessoas me dizem “você? você não pode ficar assim!”. Me tiraram o direito de ficar triste. E querem me levar pra lugares incríveis, me apresentar pessoas super divertidas, me fazer rir com bobagenzinhas gostosas. Sei encontrar lugares incríveis e conheço pessoas super divertidas toda hora. Não perdi minha capacidade de rir, oras! E comemoram: ‘ao menos te fiz rir um pouco..’ mas, que teimosia, é claro que vou rir! Estado de espírito não é senso de humor e não fiz uma alteração molecular (ou o que seja) pra deixar de ser eu. E assim todos nós vamos cedendo à convenção social. Quando perguntam “como você está?” a resposta é  ‘bem, obrigada’. E só.

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Bruno Manzaro
    jun 09, 2010 @ 00:19:03

    Iria postar um comentário grande, mas aprendi uma coisa, e agora digo: O texto está bom.

    Hahaha…

    Muito bom, parabéns.

    Responder

  2. Marcela
    jun 17, 2010 @ 17:59:54

    Nossa, o texto está muito bom! É verdadeiro, e a parte sobre saudade, sobre ficar mal e dizer apenas que está bem, combina perfeitamente com o que está acontecendo comigo agora! Resolvi entrar no blog meio por acaso, e algumas partes pareciam ser o que eu precisava dizer! Adorei mesmo!

    Responder

  3. Wivianny Merlo
    jul 03, 2010 @ 16:59:13

    Que texto lindo ! Nossa… vc arrasa demais, estou sempre por aqui verificando! Parabéns ! wivianny merlo

    Responder

  4. xdsaas
    jul 16, 2010 @ 19:11:27

    te amo ainda
    secretamente

    Responder

  5. Natasha
    ago 17, 2010 @ 02:23:56

    Dia desses eu tava tentando explicar que eu estava bem, contanto que não me perguntassem. Pq na verdade eu estava em um estado de espírito ruim que ficava abafado pelo ato de não pensar. Mas não me fiz clara. Aí cheguei aqui e você explicou tudo tão bem. Mt melhor, de fato.
    Nesse mesmo dia desses (ou em outro, foram todos iguais) cansei de mentir que estava tudo bem, para a pergunta comum. Porque as pessoas insitiam em falar e falar e querer atenção e me dava nos nervos. Recorri ao “não estou bem mas não quero falar a respeito, e vc?”.
    Funcionou. Tive meus momentos só.
    Desculpa, falei demais! Mas vc é o máximo, sempre me surpreendo quando volto aqui!
    Bjo grande

    Responder

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